A história do Pedro e do lobo costuma ser evocada para lembrar que a repetição de um aviso, sem consequência aparente, acaba por desgastar a confiança de quem o ouve. No caso do setor convencionado de imagiologia, porém, a leitura deve ser outra: o problema não esteve em lançar alarmes sem fundamento, mas sim no facto de o alerta ter sido tantas vezes feito, antes de encontrar resposta efetiva, que o tempo acabou por trazer consequências em torno de uma questão que era, desde o início, séria.
O inquérito da ANAUDI à atividade das unidades convencionadas de imagiologia, relativo a 2025, revelou que foram realizados menos atos e atendidos menos utentes, face ao ano anterior, com uma redução particularmente expressiva no âmbito do Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa área em que um exame representa, muitas vezes, o momento em que uma suspeita clínica se confirma, uma decisão terapêutica se torna possível ou um acompanhamento adequado pode, finalmente, avançar.
Este retrato torna-se especialmente relevante quando percebemos que, apesar da redução observada em termos absolutos, o SNS continua a representar cerca de 68% do total de atos realizados e de utentes atendidos pelas unidades de diagnóstico pela imagem, o que basta para recordar que o acesso ao diagnóstico, em Portugal, não se explica apenas pela capacidade instalada no setor público, mas também, e em grande parte, pela resposta que esta rede tem conseguido garantir, com proximidade, qualidade, eficiência e continuidade, mesmo em condições económicas que, durante mais de uma década, estiveram longe de acompanhar a realidade do setor.
Este desfasamento, alertado pela ANAUDI diversas vezes, foi-se acumulando ao longo dos anos, durante os quais as tabelas de atos convencionados se mantiveram inalteradas, apesar do aumento dos custos operacionais, da renovação exigida pelos equipamentos, da evolução tecnológica e do crescente nível de exigência clínica associado à prática assistencial. A capacidade de resposta não diminuiu de um momento para o outro, mas tornou-se progressivamente mais difícil assegurar, nas mesmas condições e com a mesma estabilidade, uma resposta que o sistema continuou a exigir como se as condições de base tivessem permanecido intactas.
É à luz deste percurso que a retração da atividade observada em 2025 deve ser entendida, não porque seja útil dramatizar os dados, mas porque também não seria rigoroso tratá-los como um episódio conjuntural desligado do contexto que o antecedeu. O problema não residiu na falta de relevância da imagiologia, nem numa diminuição da necessidade clínica, mas no progressivo afastamento entre aquilo que se pedia à rede e aquilo que o enquadramento lhe permitia sustentar com estabilidade.
Este contexto traduziu-se, na prática, numa dupla iniquidade, na medida em que muitos utentes ficaram sem acesso a meios complementares de diagnóstico e terapêutica e, ao mesmo tempo, um número crescente de atos foi absorvido pelo setor privado hospitalar, com um acréscimo estimado de cerca de 9% no âmbito das ecografias, com encargos diretos para os utentes.
Por esta razão, a recente atualização das tabelas de atos convencionados, na área da radiologia, deve ser interpretada como uma revisão relevante, e há muito devida, na medida em que pode contribuir para estancar a degradação da rede e sinalizar a gradual recuperação da atividade e da sustentabilidade económica das unidades. Ainda que os dados expostos não reflitam os seus efeitos, dado que a sua entrada em vigor ocorreu já em março de 2026, esta atualização pode não apagar o caminho anterior, mas poderá, certamente, alterar o enquadramento em que o futuro deve ser pensado.
Na história do Pedro e do lobo, a ausência de resposta surge quando o alerta deixa de reunir credibilidade suficiente para mobilizar uma ação. Na imagiologia, felizmente, ainda se vai a tempo de retirar uma leitura diferente: os sinais foram sendo identificados ao longo do tempo, os dados vieram confirmá-los e a atualização das tabelas traduz, agora, o reconhecimento desse diagnóstico. O que se afigura, agora, determinante, é assegurar que esta revisão evolui com continuidade, previsibilidade e consistência, de forma a que o fundamento dos alertas, reiteradamente apresentados pelo setor, se traduza numa recuperação efetiva da capacidade de resposta e numa consolidação progressiva das condições que permitem garantir, com estabilidade, o acesso ao diagnóstico. Até lá, importa não perder de vista que, antes de qualquer final feliz, e ainda longe desse final, o lobo foi, de facto, causando danos ao longo do caminho.
Eduardo Moniz, Presidente da Associação Nacional de Unidades de Diagnóstico por Imagem (ANAUDI)
Publicado na CNN Portugal a 22 de abril de 2026, em: https://cnnportugal.iol.pt/_preview/artigo/69e8ddc6d34e28842c833559