De forma recorrente, quando se fala de saúde em Portugal, cai-se numa dialética primária: público versus privado. Uma reflexão séria pressupõe ter a capacidade para fixar um ponto de partida essencial e colocar a questão: o que verdadeiramente importa no que se refere à saúde dos cidadãos?
Para a Associação Nacional de Centros de Diálise (ANADIAL) há apenas uma única e exclusiva resposta: o utente.
Ora, se assim é, Portugal e os portugueses, enquanto comunidade, deverão procurar a melhor forma de satisfação dessa necessidade.
Desde há mais de 40 anos que Portugal vem satisfazendo as suas necessidades de saúde através de duas respostas: o investimento direto no SNS (setor público) e o apelo aos prestadores do setor convencionado. O fenómeno da hospitalização privada é mais recente.
O que é o setor convencionado? São prestadores de cuidados de saúde, de natureza privada ou social, que, de acordo com um único tipo de contrato e condições, idêntico para todos, aceitam prestar cuidados de saúde por conta do Estado aos cidadãos. Esta opção trouxe celeridade na resposta, uniformidade nas condições, certeza e clareza na contratação, sem possibilidade de diferenças na contratação desses serviços.
No tratamento por hemodiálise, o modelo tem-se revelado um caso de sucesso exemplar: a despesa mantém-se rigorosamente previsível e controlada para o Estado através do denominado preço compreensivo, ao mesmo tempo que se assegura a gratuitidade e o acesso universal aos doentes.
No caso das patologias crónicas, a qualidade de vida e a própria sobrevivência dos doentes dependem rigorosamente de dois fatores cruciais: a proximidade territorial e a continuidade do tratamento. A doença renal crónica e a hemodiálise constituem, talvez, um dos exemplos mais evidentes desta realidade. Sendo a diálise um tratamento substitutivo da função renal absolutamente vital, a sua eficácia não se mede apenas pela tecnologia utilizada na sessão clínica. Mede-se pela regularidade exigida — de três sessões semanais, ano após ano — e pela relação de profunda confiança entre o doente, a equipa multidisciplinar de saúde e a unidade prestadora.
Mais do que um procedimento médico diário, a diálise é um percurso de vida prolongado que reorganiza a rotina da pessoa e da sua família. Ter de realizar deslocações frequentes três vezes por semana coloca à prova o bem-estar físico, emocional e financeiro dos doentes.
É precisamente aqui que a existência de uma rede de centros de diálise convencionados, distribuída de forma equilibrada e capilar por todo o território nacional, deixa de ser uma mera opção logística para se tornar num pilar ético e social.
Trabalhando como uma verdadeira extensão do Serviço Nacional de Saúde (SNS), os centros convencionados desempenham, há mais de 40 anos, um papel altamente estratégico. O setor convencionado na diálise dá resposta a mais de 90% dos doentes e às suas necessidades de tratamento. São estes centros que garantem que um doente, independentemente do local onde reside ou da sua condição económica, acede a um tratamento seguro, de proximidade, dotado de inovação tecnológica e no estrito cumprimento das mais rigorosas normas de qualidade e segurança clínica. A demonstração clara da excelência e segurança deste tratamento tem-se revelado, aliás, no aumento contínuo da longevidade e da idade média dos doentes, que hoje vivem mais e com melhor qualidade de vida.
A propósito do Dia Mundial da Segurança do Doente, que se assinala a 17 de setembro, importa lembrar que cuidar com segurança no contexto da doença crónica significa garantir que a saúde está perto de quem dela precisa. Para reforçar esta consciencialização e dar visibilidade às especificidades desta comunidade, a ANADIAL promoveu uma petição pública a solicitar a criação do Dia Nacional da Diálise, a assinalar a 23 de setembro. Mais do que uma data no calendário, a instituição deste dia visa reconhecer a resiliência dos doentes renais, valorizar o trabalho contínuo dos profissionais e reafirmar o compromisso com a melhoria contínua dos cuidados.
A sustentabilidade da diálise em Portugal só se mantém porque assenta numa rede convencionada forte, organizada e segura — uma parceria exemplar entre a iniciativa pública e convencionada que coloca sempre a vida, a segurança e o conforto do doente em primeiro lugar. A manutenção da rede convencionada apenas será possível se o Estado começar a aplicar o regime legal que definiu, através do qual deverá haver uma atualização do valor de reembolso, acompanhando a natural e evidente evolução da economia. Preservando o que funciona, dá resposta e não falha.
A segurança do doente é um dos temas que estará em discussão na 1.ª Conferência Anual da FNS – Federação Nacional dos Prestadores de Cuidados de Saúde que irá decorrer no dia 20 de outubro. A ANADIAL é uma associação federada na FNS, que representa o setor privado de ambulatório e convencionado na área dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica (MCDT). A rede convencionada integra a resposta assistencial do SNS, compondo a rede nacional de prestação de cuidados de saúde.
António Neves, Secretário-Geral da ANADIAL
Publicado a 17 de setembro de 2026 em: https://cnnportugal.iol.pt/rins/dialise/antonio-neves-a-proximidade-que-salva-vidas-a-seguranca-e-a-sustentabilidade-na-dialise-em-portugal/20260917/6aa18ee7d34e511da0b37c33